Hoje vi que anos de treino ostensivo não são suficientes para te livrar de alguns males. Sinto cada vez mais a dor de minhas fraturas, cada vez mais expostas. Logo estarão infeccionadas, e onde eu estou nao há remédio nem simpatias capazes de curar, ou pelo menos aliviar, minha dor. Esta dor que eu sinto tem que ser vivida, e a mereço.
Saltar do trem da morte foi uma atitude de extrema coragem, portanto faltou-me perícia. Não estou me culpando pelos meus próprios ferimentos. Estes são obra minha e quem arcará com as consequencias sou eu, que assim escolhi. Estou preocupado com a pessoa que saltou do trem junto comigo, eu a conheço de anos e sei que é muito mais fragil que eu.
Ao contrario de mim, esta nao teve treinamento algum, e pelo contrário: Eu treinava para lhe proteger, eximindo-a de qualquer necessidade naquele trem: Lá nao a faltava exatamente nada. Mas para que eu saltasse, era necessário que ela fosse junto, mas cada um para um lado da ponte.
Não a sinto, ouço ou vejo, e para ser bem sincero nem a mim eu consigo ver, somente sentir minhas dores. Espero que nao tenha acontecido o pior, senão culpar-me-ei eternamente. Ambos tentamos pular em um riacho que avistamos quando estavamos decidindo nossos futuros entre os vagões.
Tivemos que mudar de vagão algumas vezes pois os guardiões nos expulsavam e incomodavam muito. E em uma dessas trocas de vagão eu senti que minha perícia não seria suficiente, escorreguei e ralei a perna nos trilhos, que quase seguraram minha perna com o atrito, o que iria fazer a roda do trem passar por cima de mim, mas deste mal consegui me salvar.
Mas neste momento de pré morte senti que precisava fazer algumas confissões para poder encaminhar melhor o destino alheio, diminuindo os riscos que iria correr no caminho de volta à estação, e estas eu fiz. Quase exterminei verbalmente, sem ao menos precisar pular do trem para começar o sofrimento, e nestes golpes fui ferido, mas compreendido.
Logo que tive a compreensão, passei os ensinamentos divinos e aguardei para esclarecer alguma dúvida. Expliquei novamente os ensimentos, certificando-me que ela tinha compreendido, e então pedi que saltassemos, mas ela me segurou.
Por alguns minutos lembramos de todo o percurso que andamos juntos e a dor da separação foi violentíssima, maior até que a dor que sinto agora pelos ferimentos, mas assim que vimos outro riacho, combinamos de tentarmos a sorte, e depois de um abraço de despedida, cá estou cego e com muita dor, sem saber se minha ex-companheira de viagem está bem, ou pelo menos viva. Gostaria de prever o futuro mas ainda não posso. Quero que me acompanhe mas não sei se a encontrarei novamente. Gostaria de ter escrito esta história diferente mas hoje é tarde demais, resta-me agora salvar meu próprio destino andando na contramão até encontrar novamente a estação perdida.