Uns dizem que é a cura para todas as doenças, que a tudo conserta, que a tudo acomoda. Tempo de esquecer. No Incidente em Antares foi assim. Os mortos da praça se perderam num passado que permitia dúvidas sobre sua aparição e sobre todo o acontecido. Tem sido assim ainda. Mesmo com os registros documentados, com as memórias de arquivo, com as câmeras discretas (sim, elas o são!), com o meio em que agora escrevo estas linhas.
Dizem também que o tempo não volta, que não pára na curva, que não se repete: é sempre diferente e sempre outro. Ser sempre e nunca ser: caracterÃstica insólita essa de ser sempre e mesmo assim diferente.
Passa aos poucos ou passa rápido. Bons tempos aqueles em que um dia parecia uma eternidade (o pátio de casa era paÃs imenso a ser explorado). Bons tempos em que o tempo era bom pra nós. E não me venham dizer que o dia da minha infância tinha as mesmas horas de hoje. Ah, claro que não! Posso dizer hoje algo que então nem imaginava: os tempos eram outros. Naquele tempo, vinte e quatro horas demoravam muito mais pra passar. Dava pra brincar de um monte de coisas diferentes, mesmo tendo ido à aula.
O tempo voa? Então só voa, pois não decola nem pousa. Também não bate asas.
Tempo de aprender, tempo de entender, tempo de recordar, tempo de amadurecer… que dó, que dor!
Faz tanto tempo que nem lembro mais. Faz muito tempo, mas eu nunca esqueci.
O nascimento, a morte, o acidente, o roubo, o plano econômico, a invasão, o seqüestro, a perda, o ganho, a ilusão, o namoro, o casamento, a separação, o choque, a queda, o raio, o vestibular, a formatura, a descoberta, a derrubada, o encontro, o depoimento, a acusação, a gravação, a foto, a publicação, o julgamento, a condenação, a prisão, o campeonato, o bi, o tri, tetra, a frustração do hexa, a volta, a libertação, a liberação, o aumento, a taxação, a descriminalização, o impeachment, o fico, a despedida, a chegada, a surra, a vitória, a derrota, o empate, o ponto, gol, o mergulho, o derretimento, a explosão, a vergonha, o tempo…
Quando mesmo que foi? Alguém se lembra?
Três rapazes executados, o governante achacado, o deputado assassinado, a multinacional invadida, a roleta russa fatal, o comerciante morto em frente a loja de peças, o jogador de futebol e a socialite, a falência daquela grande empresa, a transferência do promotor, o enfarte do jovem empresário, a morte na derrapagem na chuva, o incêndio da madeireira, a queda do avião, o afogamento dos dois rapazes na barragem, a rebelião na cadeia, a greve na escola, o linchamento do assaltante, o seqüestro da mulher do fotógrafo.
Já se passou muito tempo. Lembro-me como se fosse hoje.
O tempo apaga tudo, cura tudo. O tempo só aumenta minha dor. Eu li nos jornais e acompanhei pela TV. Eu vivi tudo isso, eu estive lá. Ninguém mais lembra. Não consigo me esquecer.
Para eles, o tempo passa. Para nós, é tudo igual. O passado é o nosso presente. Para nós não há presente, não há futuro. Vocês vivem no passado. Você não tem futuro.
Por favor, me dêem tempo!